Mesmo com os avanços tecnológicos da odontologia moderna, o Brasil ainda convive com uma realidade preocupante: a cultura da extração dentária como solução imediata para problemas que, em muitos casos, poderiam ser tratados e preservados.
Dados de levantamentos nacionais de saúde indicam que milhões de brasileiros já perderam pelo menos um dente permanente ao longo da vida. No Ceará, o cenário chama atenção: 45,9% das pessoas com 60 anos ou mais perderam todos os dentes, enquanto cerca de 13% da população adulta é totalmente desdentada. Além disso, aproximadamente um em cada três adultos utiliza algum tipo de prótese dentária.
Para o cirurgião dentista Dr. Ezemir Guimarães, esses números refletem uma cultura histórica de remoção em vez de preservação.
“A extração ainda é vista por muitos pacientes como a solução mais simples. Mas, na maioria dos casos, a odontologia atual oferece alternativas que preservam estrutura, função e qualidade de vida. Precisamos abandonar a cultura de remover e fortalecer a cultura de reabilitar”, afirma.
Segundo o especialista, a perda dentária não impacta apenas a estética. Após a extração, inicia-se um processo natural de reabsorção óssea, que pode comprometer o volume do osso e dificultar futuras reabilitações com implantes. A ausência de um dente também provoca movimentação dos dentes vizinhos, alterações na mordida e sobrecarga em outras regiões da arcada, favorecendo desgastes, dores articulares e até problemas na mastigação.
“A boca funciona como um sistema integrado. Quando perdemos um dente sem planejamento, podemos desencadear um efeito cascata que compromete toda a estrutura bucal ao longo dos anos”, explica Dr. Ezemir.
Além dos impactos funcionais, há também repercussões sistêmicas. Infecções bucais crônicas, como doença periodontal, podem permitir que bactérias entrem na corrente sanguínea, aumentando riscos inflamatórios e estando associadas a doenças cardiovasculares e dificuldades no controle do diabetes. Em casos de implantes sem acompanhamento adequado, pode surgir a periimplantite, inflamação ao redor do implante que leva à perda óssea e, em situações mais graves, à perda do próprio implante.
O impacto emocional também não deve ser ignorado. A perda dentária pode gerar queda da autoestima, insegurança ao falar ou sorrir e até isolamento social, especialmente em pacientes que passam anos dependentes de próteses móveis.
“A extração deve ser sempre a última alternativa, não a primeira. A reabilitação oral é um investimento em saúde, longevidade e dignidade. Quando planejamos e preservamos, protegemos não apenas o sorriso, mas a saúde como um todo”, conclui o especialista.






















