‘Canções de Azar e Sorte’ também celebra os 300 anos de Fortaleza e reafirma a identidade do grupo, marcada pelo encontro entre o rock e as tradições da música nordestina (Foto: Daniel Calvet)
Rock contemporâneo e poesia de cordel. É com essa mistura singular que a banda cearense Caixeiros Viajantes vem criando, há uma década, novas sonoridades no cenário da música cearense. Neste ano, o grupo, que mantém sua formação original desde 2016, prepara o álbum “Canções de Azar e Sorte” para celebrar os dez anos de trajetória, em sintonia com as comemorações do tricentenário de Fortaleza.
O disco reafirma a presença da música nordestina no trabalho da banda, com influências que aparecem na poesia, inspirada no cordel, nas cantorias e no repente, e em ritmos tradicionais como maracatu e baião. A faixa de estreia, “Subemprego”, será lançada no dia 1º de maio, no Dia do Trabalhador, trazendo uma crítica às condições precárias e à informalidade no mercado de trabalho.
No novo projeto, Pedro Anderson (voz e violão), Jefferson Juan (voz e guitarra), Wilker Andrade (voz e baixo elétrico) e Jefferson Castro (voz e bateria) reafirmam a força da cultura nordestina em diálogo com referências universais, uma combinação que aproxima diferentes públicos.
O álbum traz referências de bandas como Cidadão Instigado e de artistas como Siba, dando continuidade a outros projetos de destaques do grupo, como os EPs “Luzes da Cidade” (2017) e “Noite” (2021). “É um mapa sonoro da Fortaleza profunda, na qual a beleza de rios e mangues encontra a aspereza do asfalto, sob o olhar do indivíduo periférico. Com canções de azar e sorte, o disco dá voz ao trabalhador urbanizado e precarizado que, entre algoritmos e a ‘uberização’, resiste à negação de seus direitos”, afirma Pedro Anderson.
Ao transformar a crise do trabalho formal em estética de resistência, Pedro ressalta que a banda nega o silenciamento e reivindica o protagonismo de quem constrói Fortaleza diariamente. “Aqui, o destino não é abstração: a sorte é um luxo raro e o azar, uma condição estrutural moldada pela violência urbana e pelo descaso ambiental”.
Rock, cordel e pertencimento
O rock e a literatura de cordel são linguagens utilizadas pelo grupo para falar sobre a vida cotidiana e os territórios de Fortaleza, aproximando os ouvintes das histórias da cidade e de suas próprias vivências. A música O “Lobisomem do Jangurussu”, faixa do EP “Luzes da Cidade”, é um dos principais sucessos da banda e ajuda a definir sua identidade musical.
Composta por Pedro Anderson, com participação do compositor e educador Parahyba de Medeiros, a canção narra, a partir da mitologia urbana, o processo de formação da comunidade do Gereba, no bairro Jangurussu. A lenda gira em torno do aterro sanitário desativado do território e denuncia a realidade de quem sobrevive do que é jogado fora.
Atualmente, o grupo apresenta o show “Canta Cordéis Itinerantes”, resultado da pesquisa desenvolvida no Laboratório de Música do Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), sob orientação do artista Parahyba de Medeiros e com participações do ator e músico Mateus Honóri (Alucinação, Guerreiros do Sol) e do cordelista Edson Oliveira. A experiência formativa em periferias da cidade fundamentou a criação do espetáculo e ampliou as oportunidades de circulação da banda, incluindo a participação no Festival Música na Ibiapaba em 2025, um dos principais eventos de formação e difusão musical do Ceará.
Caixeiros Viajantes: entre palcos, pesquisa e formação
A banda Caixeiros Viajantes é formada por integrantes de diversas periferias de Fortaleza: Jangurussu, Carlito Pamplona, José Walter e Padre Andrade. Desde 2016, os quatro músicos seguem juntos, construindo uma trajetória marcada pela autenticidade e pela força de suas raízes. Ao longo de sua trajetória, a banda tem circulado por diferentes palcos e formatos, realizando apresentações em espaços abertos e também em ambientes intimistas, como os teatros Carlos Câmara, Sesc Emiliano Queiroz e Marcus Miranda.
Em 2018, foi semifinalista do concurso nacional EDP Band Live Brasil e integrou a programação do Maloca Dragão, um dos principais eventos culturais do país. No mesmo ano, participou do programa formativo Laboratórios de Música, no Centro Cultural Bom Jardim, com orientação do músico Fernando Catatau, experiência que contribuiu para o amadurecimento artístico do grupo.
Para além dos shows, a banda também atua na pesquisa e na formação cultural, com oficinas de musicalização de cordéis realizadas em comunidades de Fortaleza. As atividades resultaram na criação de dois cordéis autorais e foram contempladas no Edital das Artes da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor), com registro em mini documentário disponível no canal da banda.























