“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” completa 40 anos de lançamento e celebra 50 anos de carreira do cineasta.
O CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO (1986) é o primeiro longa-metragem de Rosemberg Cariry (Créditos: Divulgação / Ronaldo Nunes)
O programa de Clássicos do 31º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentáriosexibirá a cópia restaurada em 4K de O CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO(1986), primeiro longa-metragem do cineasta Rosemberg Cariry. O filme é um marco no cinema brasileiro, sendo também considerado o primeiro documentário em longa-metragem realizado no estado do Ceará. As sessões acontecem no dia 17 de abril, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e no dia 18 de abril, no Estação Net Rio, no Rio de Janeiro.
As exibições marcam os 40 anos do lançamento do documentário, os 50 anos de carreira de Rosemberg Cariry e os 100 anos da criação da Comunidade do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderada pelo beato José Lourenço. A comunidade foi um marco de construção social solidária no Ceará até sua destruição violenta em 1936. O massacre foi perpetrado por uma conjunção reacionária de forças políticas e do clero conservador, valendo-se do braço armado do Estado, que invadiu o território em setembro daquele ano. A perseguição aos remanescentes estendeu-se até o bombardeio aéreo dos acampamentos de refugiados na Serra do Araripe, em maio de 1937, um período de intensa agitação nacional que antecedeu a instalação da ditadura do Estado Novo.
O Caldeirão é um lugar real e simbólico que, embora destruído, renasce agora como patrimônio da história, da luta e da cultura do povo brasileiro. A violência policial resultou em muitas vítimas, com estimativas que variam para além de mil camponeses mortos, em um dos episódios mais trágicos da história do Nordeste brasileiro. Essa destruição de uma comunidade camponesa igualitária é frequentemente comparada ao massacre de Canudos, embora em menor escala, representando a repressão da elite brasileira contra movimentos sociorreligiosos que buscavam autonomia e vivência comunitária no sertão, fugindo da exploração dos latifúndios.
Com roteiro escrito por Cariry e Firmino Holanda e fotografia de Ronaldo Nunes, O CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO reuniu depoimentos raros e inéditos de sobreviventes e até de algozes do massacre da comunidade. “Durante décadas, foi um tabu falar desse episódio tão trágico, até que um grupo de jovens cearenses resolveu fazer um filme, quando o país vivia o seu processo de redemocratização. Graças a esse resgate histórico, a memória da comunidade não se perdeu; ao contrário, continua a pulsar, despertando reflexões e inspirando movimentos de organização comunitária, sobretudo no âmbito do Movimento Sem Terra. Considero o filme O Caldeirão a conquista de uma geração que ousou fazer cinema em uma época em que, no Ceará, quase nada apontava para esse caminho”, afirma Cariry.
Cultuado e reconhecido por seu pioneirismo e por sua experimentação insubmissa, o filme permanece como um documento vivo e uma experiência estética singular, unindo a narrativa histórica à força e à diversidade das culturas populares em uma construção narrativa ousada para a época. Trata-se de um registro inestimável entre o tempo da história e o tempo da arte, reafirmando o compromisso de vida do cineasta com o resgate das memórias profundas do povo cearense e nordestino.
Ao refletir sobre o filme, o pesquisador Jean-Claude Bernardet escreveu: “A proposta de Rosemberg é claríssima e se delineia firmemente logo nos dois primeiros planos do filme. Primeiro plano: um bucrânio ainda ensanguentado, com um olho morto-vivo, a nos olhar terrivelmente; segundo plano: a câmera aproxima-se de uma repartição pública, ou melhor, um museu, que se anima com a chegada de um grupo de dança. É preciso tirar a história dos museus”. Já o cineasta documentarista Vladimir de Carvalho observou, na época: “Confesso que muito raramente tenho visto se tomar tanta liberdade com o material recolhido e se experimentar com tamanho gosto e avidez. E isso sem nunca perder o rumo da verdade, nem faltar com a autenticidade”.
O CALDEIRÃO DA SANTA CRUZ DO DESERTO é o terceiro filme de Rosemberg Cariry restaurado em 4K, após “Corisco e Dadá” (1996) e “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio” (2002), ambos reexibidos no circuito de festivais nacionais. A iniciativa visa aproximar as obras clássicas de Cariry das novas gerações, proporcionando uma revisão das abordagens estéticas do cineasta ao tratar assuntos relevantes para a cultura nordestina.
A restauração foi realizada com apoio do Museu da Imagem e do Som do Ceará – MIS/CE, Instituto Mirante, Centro Técnico Audiovisual (SAV/MinC), Iluminura Filmes e Sereia Filmes, a partir de negativos de imagem e som originais. A supervisão da restauração, assinada por Petrus Cariry, garante que a visão original de Rosemberg seja preservada para os próximos anos.
SINOPSE OFICIAL
Depoimentos e imagens que relembram o massacre sofrido pela comunidade liderada por José Lourenço. Em um sítio no sertão do Ceará, o beato paraibano fundou a comunidade Caldeirão nos moldes socialistas. O local se tornou alvo das autoridades políticas e religiosas após a Intentona de 1935, que desencadeou o ódio ao Comunismo e a lembrança de Canudos. O resultado foi mais um episódio dramático na história do Nordeste brasileiro.
FICHA TÉCNICA
O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto – 1986
Classificação indicativa: Livre
Duração: 87 minutos
Gênero: Documentário
País: Brasil
Bitola: DCP 4K
Idioma: Português
Direção: Rosemberg Cariry
Roteiro: Rosemberg Cariry e Firmino Holanda
Produção Executiva: Francis Vale e José Wilton (Dedê)
Direção de Produção: Robson Gomes de Azevedo e Jefferson de Albuquerque Jr.
Direção de Fotografia: Ronaldo Nunes
Som Direto: Lia Camargo e Francisco Pereira de Sousa (Chico Bororo)
Montagem: Carlos Cox e Manfredo Caldas
Trilha Sonora: Cleivan Paiva
Narração: Jorge Ramos
Mixagem: Carlos de la Riva (Estúdio Delart)
Assistente de Direção: Nirton Venâncio
Still: Nirton Venâncio e Liloye Boubli
FICHA TÉCNICA DA RESTAURAÇÃO
Produção Executiva: Bárbara Cariry
Equipe do Museu da Imagem e do Som – MIS/CE: Alan Emmanuel, David Felício, Gabriela Dantas, Gabriel Mendes e César Barreto
Supervisão Técnica e Color Grading: Petrus Cariry
Retoques Digitais: Magno Guimarães
Restauração de Som e Mixagem: Érico Paiva
Distribuição: Sereia Filmes
SOBRE ROSEMBERG CARIRY
Rosemberg Cariry nasceu em Farias Brito, no Ceará, em 1953. É diretor, roteirista e produtor. Começou sua carreira cinematográfica em 1975 e, na década de 1980, estreou na direção do longa-metragem “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1986). Nos anos 90, dirigiu “A Saga do Guerreiro Alumioso” (1993) e “Corisco e Dadá” (1996). Nos anos 2000, realizou cinco longas-metragens, sendo os mais expressivos “Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio” (2002), “Patativa do Assaré: Ave Poesia” (2007) e “Siri-ará” (2008). Dirigiu também “Os Pobres Diabos” (2013), “Notícias do Fim do Mundo” (2019) e “Os Escravos de Jó” (2020). Com seus filmes, participou de festivais nacionais e internacionais, conquistando vários prêmios. Atuou em importantes entidades representativas do audiovisual brasileiro, tendo exercido a presidência do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC) e integrado o Conselho Superior de Cinema, além de participar de diversos fóruns nacionais e internacionais. É graduado em Filosofia, com doutorado e pós-doutorado em Educação Artística pela Universidade do Porto e de Lisboa. Em 2024, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Regional do Cariri (URCA).
SOBRE A SEREIA FILMES
Em atividade desde 2007, a Sereia Filmes é uma produtora e distribuidora de filmes responsável por lançar em circuito obras como “A Jangada de Welles” (2019) e “Mais Pesado é o Céu” (2023), ambos de Petrus Cariry, sendo o primeiro codirigido por Firmino Holanda; “Pequenos Guerreiros” (2021), de Bárbara Cariry; “Antonio Bandeira – O Poeta das Cores” (2024), de Joe Pimentel; e, recentemente, a cópia remasterizada em 4K de “Corisco e Dadá” (1996), de Rosemberg Cariry.























