Aos 61 anos, Joel “Cupim” soma quase três décadas vivendo na Serra do Mar, onde testemunhou a recuperação da vegetação, conviveu com animais silvestres e se tornou uma das figuras mais conhecidas da região
Quem percorre as trilhas da Serra do Mar há algum tempo provavelmente já ouviu falar de Joel, mais conhecido pelo apelido de “Cupim”. Domador de cavalos, conhecedor profundo das matas e personagem respeitado por moradores da região, ele construiu uma trajetória que se confunde com a própria história recente de um dos mais importantes remanescentes de Mata Atlântica do país.
Nascido em Porto Feliz, no interior de São Paulo, Joel cresceu em meio à criação de animais mantida pelo pai. Desde os seis anos de idade conviveu diariamente com cavalos, porcos, galinhas e cabritos, desenvolvendo uma ligação que marcaria toda a sua vida. Aos dez anos, já montava em animais considerados chucros e temperamentais, trabalhando para transformá-los em montarias seguras.
Foi justamente nessa época que nasceu o apelido que o acompanha até hoje. Durante o processo de treinamento, Joel ensinava os cavalos a saltarem sobre cupinzeiros espalhados pelas propriedades rurais. A habilidade chamou a atenção de amigos e conhecidos, que passaram a chamá-lo de “Cupim”, nome que atravessou décadas e se tornou sua marca registrada.
Em 2003, buscando aperfeiçoar seus métodos, Joel realizou um curso de doma racional, técnica baseada na construção de confiança entre homem e animal por meio de estímulos positivos e recompensas. O método substitui práticas tradicionais de imposição pela criação de vínculos de respeito, tornando o treinamento mais seguro e eficiente tanto para os cavalos quanto para seus proprietários.
Mas foi em 1999 que sua história ganhou um novo capítulo. Encantado pela natureza local, Joel decidiu fixar residência na Serra do Mar. Desde então, já são mais de 25 anos percorrendo trilhas, observando a fauna e acompanhando de perto as transformações da floresta.
Segundo ele, a região era bastante diferente quando chegou. Muitos trechos apresentavam áreas abertas e marcas deixadas por queimadas. Com o passar dos anos, porém, a vegetação voltou a ocupar esses espaços, favorecendo o retorno de diversas espécies silvestres.
“Hoje vemos uma mata muito mais viva. A vegetação se recuperou e os animais voltaram a ocupar muitos lugares.”, afirma.
Ao longo das décadas, Joel acumulou encontros marcantes com a fauna da Mata Atlântica. Veados-mateiros, jaguatiricas, quatis, cachorros-do-mato e diferentes espécies de serpentes fazem parte de suas memórias. Entre todas as histórias, uma permanece especialmente viva.
Durante uma pausa em uma de suas cavalgadas, ele decidiu descansar por alguns minutos em meio à mata. O cochilo foi interrompido de forma inesperada.
“Acordei sentindo um peso no peito e uma sensação gelada. Quando percebi, uma cobra enorme estava passando por cima de mim. Não tinha muito o que fazer além de ficar parado e esperar ela seguir o caminho dela. Foi um susto daqueles que a gente nunca esquece”, relembra.
Os desafios da Serra do Mar, porém, nem sempre vêm dos animais. Para Joel, uma das características mais imprevisíveis da região é o clima. Neblinas densas podem surgir em questão de minutos, transformando completamente a paisagem e dificultando a orientação até mesmo para quem conhece as trilhas há décadas.
“Você pode sair com o dia aberto e ensolarado, mas, de repente, a serração toma conta de tudo. Já aconteceu de eu perder referências e ter dificuldade para encontrar o caminho de volta por causa da neblina”, conta.
Para quem passou grande parte da vida em contato direto com a natureza, a principal lição vai muito além da preservação por obrigação. Joel acredita que proteger a Mata Atlântica exige uma mudança de percepção sobre o papel das pessoas no equilíbrio ambiental.
“Ter consciência ambiental é entender que a natureza é a casa dos animais e que eles dependem dela para sobreviver. É muito mais do que pensar na beleza da paisagem. Quando você vê uma floresta preservada, está vendo famílias inteiras de animais vivendo ali. Nós também fazemos parte desse ambiente. Somos todos responsáveis por cuidar dele”, afirma.
Ao olhar para o futuro da Serra do Mar, Joel mantém o otimismo. Para ele, se a região continuar protegida contra queimadas, desmatamentos e outras formas de degradação, as próximas gerações terão a oportunidade de conhecer uma floresta ainda mais rica e preservada.
Sobre Joel “Cupim”
Conhecido como “Cupim”, Joel é domador de cavalos, especialista em doma racional e uma das figuras mais emblemáticas da Serra do Mar. Há mais de duas décadas vivendo na região, tornou-se referência pelo profundo conhecimento das trilhas, da fauna e da flora da Mata Atlântica. Ao longo dos anos, acompanhou a recuperação de áreas degradadas, testemunhou o retorno de diversas espécies silvestres e consolidou sua imagem como um defensor da preservação ambiental. Sua trajetória une tradição rural, respeito aos animais e uma relação única com um dos biomas mais importantes do Brasil.
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