O sertão que encanta, cura e projeta o futuro do cinema: filme “Nova Terra” terá primeira exibição dia 7 de novembro em Senador Pompeu

Com direção de Fram Paulo e raízes fincadas no teatro popular, o longa-metragem faz da Caatinga um território místico de cura, memória ancestral e renovação artística do cinema independente

Longe das capitais e das fórmulas consolidadas pelo circuito comercial hegemônico, o cinema cearense encontra na imensidão do Sertão Central uma linguagem própria, onde a poética do chão seco ganha contornos de fábula, manifesto social e experiência sensorial. É desse território vivo, marcado por cicatrizes históricas e exuberância natural, que emerge Nova Terra, longa-metragem dirigido pelo cineasta Fram Paulo e realizado pela Uzina Filmes. A produção, contemplada pelos recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), marca a consolidação de um movimento urgente de descentralização do audiovisual, provando que as narrativas geradas no interior possuem fôlego estético, rigor técnico e densidade dramática para dialogar com qualquer tela do mundo.

O ponto de partida do filme desafia o realismo documental tradicional e aposta em uma narrativa que borra propositalmente as fronteiras entre o palco, a realidade e o mito. O argumento acompanha sete jovens artistas de teatro que decidem se isolar na aridez da Caatinga para conceber um espetáculo autoral. Contudo, o isolamento geográfico e o contato direto com a geografia mística da região desviam o processo criativo para caminhos imprevistos: a montagem cênica converte-se na gestação da Irmandade Nova Terra. Ao se depararem com as inscrições milenares da Pedra do Letreiro e os mistérios guardados pela Serra dos Encantados, esses jovens deixam de apenas representar e passam a vivenciar uma travessia de purgação e busca por um novo sentido de humanidade.

Essa simbiose entre os personagens e o ambiente natural é o grande motor da encenação proposta por Fram Paulo. O diretor rejeita veementemente a convenção de utilizar o semiárido apenas como moldura pitoresca de tragédias ou secas. Para o cineasta, o espaço cênico é um organismo consciente, dotado de pulso e agência sobre as ações humanas. “O sertão não é um vazio. Ele respira, ensina, guarda memórias e revela forças invisíveis a quem sabe escutar. Sempre digo que o sertão é um universo e há o sertão dentro e fora de mim”, ressalta Fram Paulo ao refletir sobre a concepção da obra. “No filme, ele deixa de ser pano de fundo e passa a agir diretamente sobre os personagens, conduzindo conflitos e transformações. A caatinga não testemunha a história; ela é quem dita o tempo da história.”

CULTURA POPULAR 

A própria carpintaria do longa-metragem resulta de uma trajetória artística enraizada na cultura popular e no teatro comunitário, elementos que precedem a formação cinematográfica formal do realizador. Essa bagagem confere à tela uma organicidade rara, em que a palavra dita e a gestualidade dos atores assumem uma dimensão quase litúrgica. Como explica o próprio Fram Paulo: “Antes de qualquer formação acadêmica, minha experiência com arte veio do terreiro, do reisado, das histórias contadas à noite. Eu já fazia teatro sem saber. Em Nova Terra, essa raiz aparece na forma como os corpos ocupam o espaço e como a palavra ganha força dentro da imagem. O teatro me permitiu criar um cinema possível, feito com proximidade, afeto e verdade crua.”

Esse cinema de proximidade transparece na entrega de um elenco formado majoritariamente por talentos locais que vivenciaram sua primeira imersão na linguagem do audiovisual. Na pele de Margarida, a atriz Luana Aflla assume o posto de consciência crítica e política do grupo. Estreante nas telas, Luana empresta uma densidade cortante à sua personagem, pontuando que o devaneio artístico e a busca espiritual não podem se dissociar da urgência das lutas cotidianas, como a soberania agrária, a posse da terra e os direitos fundamentais do povo sertanejo. A jornada de Margarida traduz o lema de levar o próprio sertão entranhado na pele para a cena, tensionando o grupo toda vez que a utopia corre o risco de virar fuga da realidade.

Em contrapartida à combatividade de Margarida, ergue-se a figura enigmática de Jeremias, vivido pelo ator e professor de teatro Renato de Humaitá. Jeremias opera como a ponte sensível entre a matéria palpável e a cosmovisão imaterial da Mata Branca. Guiado pelas lendas transmitidas por sua avó e por visões que desafiam a razão cartesiana, ele conduz seus companheiros pelos portais sagrados da região. Para Renato, o processo de filmagem em Senador Pompeu configurou também uma redescoberta íntima e poética do cotidiano: as rochas, a flora espinhosa e os caminhos poeirentos revelaram-se templos de uma ancestralidade que o filme busca resgatar e celebrar em sua dimensão mais digna.

HISTÓRIAS DO SERTÃO 

A polifonia da Irmandade ganha contornos de intenso conflito através de Pedro, interpretado por Jeovan Lucas, conhecido como Bedeu. Oriundo da energia festiva das danças e do universo das quadrilhas juninas, o artista enfrentou o desafio de encarnar o ceticismo bruto. Marcado pelo rancor e pelo medo da desilusão, Pedro é o integrante que resiste ferrenhamente aos sonhos comunitários, duvida das visões místicas e testa os limites da paciência coletiva. No entanto, sua trajetória é a própria metáfora do acolhimento: por trás de sua armadura hostil, encontra na irmandade a primeira família real a não soltar sua mão no momento em que as fragilidades transbordam.

A dimensão ética da obra expande-se de maneira contundente com a atuação de Lua Augusto no papel de Mariana. Em sua estreia no cinema, a atriz transpôs suas próprias dores e vivências para dar corpo a uma personagem blindada contra a violência cotidiana do mundo exterior. Lua defende abertamente a representatividade como um imperativo político e humano no cinema brasileiro, afirmando a necessidade inadiável de que artistas trans e travestis ocupem os espaços protagônicos e contem histórias que escapem dos estigmas redutores. Em Mariana, a intransigência inicial nada mais é do que uma couraça de proteção que, aos poucos, se desfaz diante do afeto comunitário.

A própria realidade encarregou-se de costurar coincidências comoventes durante a feitura do projeto, como se o tema central do renascimento operasse além do roteiro. A atriz Marília Holanda, que dá vida à sonhadora Coralina, descobriu que estava à espera de seu filho Bento precisamente durante os dias mais intensos de filmagem sob o sol da Caatinga. A gestação real entrelaçou-se de forma indelével à caminhada de sua personagem, uma jovem que sobreviveu à privação injusta de sua liberdade e escolheu transformar o trauma em fé inabalável no poder revolucionário do fazer teatral.

As trajetórias de Albino, interpretado por Ermesson Matos, e de Tonho, defendido por João Charlie, complementam esse arco de reparação humana. Ambos os personagens chegam à Irmandade trazendo a memória crua do desamparo das ruas, encontrando no grupo uma tábua de salvação e pertencimento. Para além da transição desafiadora entre as técnicas do teatro de rua e as sutilezas da lente cinematográfica, Ermesson e João relataram o impacto identitário de filmar em sítios com presença de pinturas rupestres. Estar diante de registros deixados milhares de anos atrás pelos povos originários da Caatinga funcionou como um reencontro ancestral, desmistificando o apagamento sistemático que recai sobre as raízes indígenas do semiárido brasileiro.

Essa costura temporal ganha contornos míticos através da voz veterana de Soraia Falcão, a Contadora de Histórias da narrativa. Ao transitar entre o passado imemorial e os anseios do presente, a personagem ecoa como a guardiã das memórias não documentadas, convocando a plateia a repensar a história oficial do Nordeste e a exigir a preservação de seus sítios arqueológicos. Ao mesmo tempo, do lado de fora daquele refúgio sagrado, o ator e humorista Luciano Lopes encarna o Radialista, uma voz solitária sintonizada nas frequências radiofônicas que alerta sobre o colapso e as incertezas de um mundo exterior em ruínas. A participação de Luciano reforça ainda um pleito veemente do setor cultural: o reconhecimento e a injeção contínua de recursos públicos nas criações que nascem no interior, longe dos eixos centrais de financiamento.

PAISAGEM SONORA 

O cuidado formal do longa não se limita à potência visual e temática, mas atinge um ponto alto em sua concepção sonora e na acessibilidade. A equipe da Uzina Filmes realizou uma minuciosa captação in loco da paisagem sonora da caatinga: o estalar dos galhos secos, o farfalhar do juazeiro, o assovio rascante das rajadas de vento e o canto dos pássaros compõem uma tessitura sonora que transporta o espectador diretamente para as entranhas do território. Essa atmosfera ganha contorno lírico na música-tema “Canção da Nova Terra”, interpretada pelos cantores Agna Ruth e Dedezinho, um hino telúrico de exaltação à esperança e à resistência sertaneja.

Garantindo que a mensagem artística alcance todas as pessoas de maneira plena e irrestrita, o filme contou com a dedicação da tradutora e intérprete de Libras Vitória Nogueira, de Acopiara. O processo superou a mera transposição mecânica do texto: Vitória desenvolveu uma série de sinais originais na Língua Brasileira de Sinais para identificar individualmente os personagens — Panier, Jeremias, Margarida, Mariana, Coralina, Pedro, Tonho e Albino —, integrando a comunidade surda à mitologia da obra e estabelecendo uma assinatura visual definitiva para o elenco.

LANÇAMENTO 

O lançamento do filme no Centro Pastoral de Senador Pompeu ganha contornos de consagração simbólica ao integrar a 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca. Trata-se de um evento histórico de profunda relevância para a memória social e as lutas do Ceará, tornando o reencontro da obra com a comunidade que a acolheu um ato de celebração mútua entre artistas e moradores. Nova Terra chega às telas não apenas como uma realização estética refinada, mas como a prova indelével de que a arte forjada na poeira do sertão carrega uma força transformadora inegociável, capaz de erguer pontes entre a ancestralidade mais remota e os sonhos mais luminosos do amanhã.

SERVIÇO

Estreia Oficial – Primeira exibição do Longa-Metragem “Nova Terra”

Data: 7 de novembro

Local: Centro Pastoral de Senador Pompeu

Endereço: Senador Pompeu – CE

Programação: Integrante da 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca

Horário: 20 Horas

Entrada: Gratuita e aberta ao público

Participações: Exibição especial com a presença do diretor Fram Paulo, elenco e equipe técnica, seguida de debate aberto com os espectadores.

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Bruno Barreto

Repórter Jornalista atuante a mais de 20 anos no mercado cearense, sendo destaque nas maiores coberturas nacionais com entrevistas com grandes nomes da música brasileira, além de assessor de imprensa de várias empresas e marcas do estado!

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